sábado, 31 de agosto de 2013

Projeto dialético


Nesta busca estética do nada,
aposto na poesia como realidade do espírito,
numa tese defino o ser no aqui e agora
numa antítese defino aquilo que já não minto.

Busco a síntese num total de ser-não-ser
continuo sendo assim, particular,
solitária, devedora e paciente,
de um universo que insiste em aflorar

Sobre as idéias de um plano consciente
materializo as ações em tom vulgar
leio as linhas e me encontro impaciente
de resposta, de amor, de um luar.

Teorias, vozes impostas, pregação
nego tudo, sem sentido imanente
misturo a razão, a dor e a emoção,
num jogo de palavras inconsciente.

De um livro pode sair pecados
de um corpo intelecto do coração
da postura um andar meio enquadrado
da poesia, infinita sensação.


* Me perdoem, Hegel e Marx, por utilizar vocês como inspiração.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Questão de não ser

Meu corpo se cansa
com o fardo carregado se lamenta,
com a alma rastejada se pergunta
com o coração aberto se arrebenta.

Se a vida se mostra clara, me sinto escura
se os olhos não se mostram não se alcançam
se me movo arremessada na loucura,
as minhas idéias solteiras se balançam.

Se meu coração demonstra se endurece
se minhas mãos escrevem se apavoram
se as palavras da vida o corpo aquece
me sinto fria, elas me devoram.

Se o oposto da vontade acontecer,
que haja a cria de sombra por entre os lados
que venha a chama colorida esvaecer
e ao queimar deixe os amores bem guardados.

Quando toda a obra prima for composta 
que espalhe no final uma luz branca
que lumie toda esta canção oposta
que de melodia nada tem e nem resposta...

Se no céu a lua faz o seu traçado
Se na terra há amor pela vida inteira, 
gostaria de provar ao ser amado,
que questão de não ser é passageira. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Análise Fantástica I

Tão idealizada é a idéia de existir
que me vem de te lembrar
a minha pequeneza em relação a você e a todos
Teu corpo de atitudes não concretizadas
me deixa a idéia de coisa que passa.
Só por pensar-te tenho-me como sou agora
consciente sempre de mim tento te sentir
E assim neste ignorante pensamento
vem me a suposta
tudo o que escrevo minto?
O sonho, a ilusão a sensação
Não te compreendo vivendo em mim
nem quero que te compreendas longe
Pois de ti só quero mesmo o interior crepúsculo
Pois só a partir daí, 
que sou eu
sentindo-me como sempre
uma nova pessoa
uma nova vida
apenas sendo. 


Baseada no poema de Fernando Pessoa "Análise"

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Frieza

De um copo gélido e calado
Transbordam as arestas de um sentimento rouco
Que só existe enquanto melancolia
Profundo sentimento de perda e revelia
Tirando tudo o que eu gostaria de dizer
Não sobra mais nada
Nem corpo, nem alma, nem vida
Só palavras, verbos estáticos,
Apanhados um a um, como num cálculo preciso
Preciso dizer que não sei
Preciso dizer que talvez
Preciso dizer que um dia
Esta mais doce companhia
Sou eu do outro lado
Me fazendo de desentendida,
De uma vida destemida
De dor, lágrimas, solidão
Um corpo só que não se entende
O mais eterno dos poentes
Nasce em mim num apagão.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Gentis serpentes

Gentis serpentes chegam pra anunciar o dia
Rabisco a fundo o papel gasto,
Tentando deixar uma marca infalível
No presente do tempo, num futuro nefasto.

Entendo que o presente não pode ser mais que isto
Um bicho curvado, uma raposa astuta
Matreira, adentra o mato
Se esconde pra não ser vista!

Deixo de lado o passado obscuro
Ao mesmo tempo em que navego no verbo presente
Sentir, doer, estar consciente
De tudo aquilo que me nego de fato

A negação de tudo,
pronta pra dominar a cena
Acena, tal qual viúva
De um esposo que ora findado
Ocupa espaço no armário fundo.

Gentil criado
Que recolheu os meus cacos
Vê lá se não sobrou um apenas,
reluzindo atrás da porta ou no vão das gavetas.

Recolha-o, calado.
Não perguntes nada, apenas traga-o,
Quando estiver de olhos nele
Saberei o que fazer com este pedaço que me falta.


* Inspirado em parte no poema de Álvaro de Campos "A minha alma partiu-se"http://www.citador.pt/poemas/a-minha-alma-partiuse-alvaro-de-camposbrbheteronimo-de-fernando-pessoa


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Não sei pra onde olhar

Não consigo achar muitas respostas nestes meus 21 anos. 
Elas me parecem inalcançáveis, 
guardadas em uma prateleira muito alta, impossíveis de serem tocadas. 
Quando muito, alguma delas escorrega da prateleira e cai, assim,
bem em cima da minha cabeça. 
Mas logicamente - no momento em que eu não estou atrás de respostas.
Simplesmente a ignoro.
Pura ignorância.
Chegada

É longa a minha jornada
de caminhada no obscuro alento
de uma vida sem camadas
sem ordem, sem firmamento.
Me vejo despida de qualquer propósito
a chama clara desaparece
o que fica é apenas o ócio,
daquele que vibra mas não se aquece.
Depois de tanto tempo silenciada
depois de tanta amargura
quero tirar da atadura
aquela ferida que me põe de olhos fechados.
Aquela cegueira que me faz sangrar.
 E a todos os seres bem vindos
faço a minha saudação suprema
palavras não são mais amenas
são de ópio, viciadas e queimadas
No infortúnio, nas chamas da vida.
Mereço eu tantas palavras?
Não acho que as criei
São apenas malcriadas;
por um cérebro que não é meu.